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sábado, 11 de agosto de 2012

Sonetos sobre sonetos

Soneto é uma composição poética de 14 versos, dispostos ou em dois quartetos e dois tercetos (soneto italiano ou petrarquiano, o mais cultivado) ou em três quartetos e um dístico (soneto inglês).


Soneto por encomenda
(Lope de Vega,(poeta espanhol nascido no século XVII)


Un soneto me manda hacer Violante,                   Um soneto manda-me fazer Violante
que en mi vida me he visto en tal aprieto;             e em minha nunca me vi em tal  aperto
catorce versos dicen que es soneto:                     catorze versos dizem que é soneto:
burla burlando van los tres delante.                      brinca, brincando vão os tres adiante.

Yo pensé que no hallara consonante                     Pensei que não acharia consoante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;                       e já estou na metade de outro quarteto
mas si me veo en el primer terceto                       se me vejo no primeiro terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.       não há coisa nos quartetos que espante.

Por el primer terceto voy entrando                       No primeiro terceto vou entrando
y parece que entré con pie derecho,                     e parece que entro com pé direito
pues fin con este verso le voy dando.                    pois fim com esse verso lhe vou dando

Ya estoy en el segundo, y aún sospecho               Já estou no segundo e ainda suspeito
que voy los trece versos acabando;                     que vou os treze versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.                     Contai se são catorze, e já está feito.     



Soneto
(Gregório de Matos , poeta satírico brasileiro,1623-1696)

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.



SONETO 233 SONETADO
(Glauco Mattoso, poeta brasileiro)

Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

                

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Literatura - Camões plagiou Petrarca?


Camões plagiou Petrarca?

Alguns afirmam que o famoso soneto "Alma minha"(Soneto 19) de Camões é um plágio do Soneto 31 de Petrarca, pois as primeiras estrofes dos dois poemas são praticamente identicas como se pode ver abaixo.
Camões nasceu e morreu no século XVI (dois séculos após Petrarca) e teve acesso às obras deste último e de outros também, claro.
Acredito mais numa homenagem de Camões a Petrarca e não em plágio, pois observem que as demais estrofes não tem nada de semelhantes.
Bem, leiam os dois poemas e tirem suas conclusões.


Soneto 31 de Petrarca

Questa anima gentil che si diparte,      
anzi tempo chiamata a l'altra vita,      
se lassuso è quanto esser dê gradita,    
terrà del ciel la piú beata parte.

S'ella riman fra 'l terzo lume et Marte,
fia la vista del sole scolorita,
poi ch'a mirar sua bellezza infinita
l'anime degne intorno a lei fien sparte.

Se si posasse sotto al quarto nido,
ciascuna de le tre saria men bella,
et essa sola avria la fama e 'l grido;

nel quinto giro non habitrebbe ella;
ma se vola piú alto, assai mi fido
che con Giove sia vinta ogni altra stella.

(tradução livre)

Esta alma gentil que partiu,
antes do tempo, chamada à outra vida,
terá no céu segura acolhida
terá do céu a mais beata parte.

Se ela ficar entre a terceira luz e Marte,
será a vista do sol descolorida
depois virá, toda alma ao céu subida
em torno dela olhar sua beleza infinita

Se pousar abaixo do quarto ninho,
nenhuma das três será mais bela,
que esta só, espalhada a fama e o grito;

No quinto giro não chegara ela;
mas se voar mais alto, em muito confio
ser vencido Júpiter e cada outra estrela.




SONETO 19  de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor, que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.