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terça-feira, 17 de junho de 2014

Micro contosco

Hhahahahahaha...este eu acabei de inventar:

Alzheimer ataca de novo: "Foi à loja comprar porcas e parafusos. No caminho confundiu-se. Acabou indo ao mercado e comprou dois leitões."

sábado, 7 de junho de 2014

Um pouco de literatura brasileira - Julio Ribeiro

Aqui um trecho especial de "A carne", escrito em 1888, onde o escritor realista Julio Ribeiro relata impressões de sua viagem de trem da Estação da Luz até Santos, passando pelo ABC (na época Santo André ainda era chamada de São Bernardo)

"Da capital a Santos foi que rolei em pleno desconhecido, foi que se me deparou assunto novo de estudo.

Os campos famosos de Piratininga constituem um platêau que coleia suave, em outeiros mansos, emoldurado à direita pelos cabeços longínquos da Serra do Cubatão, à esquerda pelos visos azulados da Cantareira, pelos picos verdoengos do Jaraguá.

De leste a oeste, um pouco ao norte da cidade, rola o Tietê profundo, negro, taciturno, formando um vale extensíssimo, muito largo.

A conformação atual desse vale, a turfa pantanosa que o constitui em grande parte, o alagamento anual que nele se opera, tudo atesta que ele foi em tempo um lago enorme, sinuoso, semeado de ilhas, um mar de água doce, que ia talvez até Moji das Cruzes. A serra da Cantareira e a vertente norte da serra do Cubatão deram batalha aluvial ao mediterrâneo doce, venceram-no, entupiram-no: o vale do Tietê é a conquista.

As correntes de águas perenes conglobaram-se, aunaram-se, cavaram leitos, formaram os rios que hoje retalham a planície.

Vi de relance o casarão que se está fazendo para comemorar independência, ou melhor, para comemorar... por que não dizê-lo ? para comemorar o desarranjo funcional que levou o Senhor D. Pedro de Bragança e apear-se ali, às quatro horas da tarde do dia 7 de setembro de 1822.

Não há ver nestas paragens aflora maravilhosa das nossas zonas do oeste, os perovões, as batalhas enormes, os jequitibás de cinco metros de diâmetro: a vegetação arborescente é enfezada, baixa, quase anã. Não é basta, contínua: forma reboleiras, restingas, capões, ilhas de verdura, no amarelado pardo do campestre interminável.
Esta região é considerada estéril, maninha: nada mais injusto. Verdade é que não vinga aqui o cafeeiro, que a cana é somenos a de Capivari e mesmo a de Santos, que o algodoeiro não se pode comparar com o de Sorocaba; mas, por Deus! nem só café, açúcar e algodão é riqueza.

A vinha medra de modo assombroso: com uma cultura inteligente, com uma poda antecipada, poderia ela produzir em princípios de dezembro, evitando as chuvas de janeiro que lhe águam os bagos, que lhes deturpam os racimos.

Em São Caetano, em terras outrora baldias, de que ninguém fazia caso, há vinhedos formosíssimos plantados por italianos. A vista alegra-se com a simetria das parreiras, o coração rejubila com a idéia de uma prosperidade imensa, geral, em futuro não remoto, por todos os ângulos de nosso... de nossa província eu ia escrevendo estado.

As hortaliças são enormes: um dia destes vi eu uma couve vinda de São Paulo que era um monstro de desenvolvimento: tinha folhas de cinqüenta centímetros de diâmetro menor; media-lhe o caule muito mais de dois metros.

E por que não há de se cuidar do trigo? os antigos cuidaram com sucesso: em São Paulo comeu-se muito pão de trigo da terra. Ninguém ignora o que a agricultura científica tem feito das landes infecundas da Gasconha. Pois os campos de Piratininga não admitem confronto com as landes da Gasconha: são-lhes infinitamente sublimados.

E a indústria pastoril? Que riqueza imensa a se oferecer espontânea.

De São Bernardo em diante a planície muda de aspecto. Os capões, as restingas vão-se convertendo em um matagal basto, contínuo, verde-negro. Aqui e ali, no dorso de uma colina, no cabeço de um outeiro, rubro, semelhante a uma escoriação, serpeia o leito de um caminho.

Na chã que se vai gradualmente alteando destacam-se as gramíneas, moitas de plantas baixas, de folhas escuras, de flores roxas, muito grandes.

De um e de outro lado do trem perpassam, fogem sombras compactas, fortes: são os primeiros topes da serra. Em vários lugares desnuda-se o granito lavado pelo enxurro, arrebatado pelas brocas do mineiro, esfacelado pela marreta do britador.

Em todas as árvores vêem-se parasitas, de flores escarlates, de folhas lustrosas. A máquina, arfando, em carreira vertiginosa, arrastando o tender, arrastando a longa cauda de carros, triunfante, rumorosa, sobe, galga, vence, domina, salva o declive áspero, rola em terreno plano. O ar torna-se mais fino, mais úmido, a luz mais viva, mais mordente.

À esquerda, rápidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se montanhas, visos, picos, paredões, agruras, despedaçamentos de cordilheira.

À direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminência, casebres miseráveis; sobre o rechano uma igrejinha rústica, desgraciosa, malfeita, com três janelas, com dois simulacros de torres,
a picar de branco o azul do céu e o escuro da mata.

É o alto da serra."

domingo, 1 de junho de 2014

Casais famosos da literatura universal

Capitu e Bentinho - Dom Casmurro (Machado de Assis
Bentinho é apaixonado por Capitu, mas alimenta suspeitas que seu melhor amigo seja o amante de sua mulher. Deu origem ao filme “Capitu” de 1968, dirigido por Paulo Cesar Sarraceni com roteiro escrito por Paulo Emilio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles. No elenco, Isabella(Capitu), Othon Bastos(Bentinho) e Raul Cortez (Escobar).


Tristão e Isolda -lenda medieval
História lendária sobre o trágico amor entre o cavaleiro Tristão, originário da Cornualha, e a princesa irlandesa Isolda De origem medieval, a lenda foi contada e recontada em muitas diferentes versões ao longo dos séculos. Também foi levada para o cinema em 2006, dirigido por Kevin Reynolds. No elenco James Franco, Sophia Myles e Rufus Sewell


 Romeu e Julieta – William Shakespeare
Suas famílias são inimigas há tempos, mas isso não impediu de os dois se apaixonarem e morrerem por esse amor. A maior história de amor de todos os tempos. Teve inúmeras versões para o teatro, ópera e cinema e até hoje suscita admiração . Destaco aqui a de1968 dirigida por Franco Zefirelli, com Olivia Hussey, Leonard Whiting e Michael York. Foi grande sucesso de bilheteria e é considerada uma das melhores versões para o cinema.

 Cyrano e Roxane –Cyrano de Bergerac (Edmond Rostand)
A história se passa entre 1640 e 1655. Cyrano de Bergerac é um herói romântico, que combate a covardia, a estupidez e a mentira. Ele ama sua prima, Roxane, moça inteligente, mas um tanto pedante, que gosta de ser cortejada com palavras bonitas e originais. O jovem Cristiano também a ama, mas não sabe falar com brilhantismo, ao contrário de Cyrano, que tem o dom da palavra. Cyrano, sem esperanças de conquistar a prima, em razão de ser bastante feio, resolve ajudar Cristiano a conquistá-la através das palavras.Há várias adaptações para o cinema (inclusive a comédia de 1987 interpretada por Steve Martin e Daryl Hannah, "Roxanne"), mas a melhor é dirigida por Jean-Paul Rappeneau em 1990, com reconstituição de época irrepreensível, tendo recebido vários prêmios, inclusive o de melhor ator para Gerard Depardieu no Festival de Cannes (ele também foi indicado para o Oscar)

 Ulisses e Penélope – A odisséia (Homero)
Com o fim da Guerra de Tróia, o guerreiro Ulisses retorna para sua amada Penélope, na ilha de Ítaca. No caminho, entre outros perigos, ele enfrenta cíclopes, é tentado por sereias e encontra a brucxa Circe, que transforma metade de seus homens em porcos. Somente dez anos depois, Ulisses chega a seu destino, porém ainda tem de se haver com os pretendentes que assediam sua esposa. Foi levado para o cinema em 1954, dirigido por Mario Camerini e estrelado por Kirk Douglas e Silvana Mangano. O luxo da produção coloca-a acima da média dos épicos produzidos na Itália naquele período; entre os pontos altos, destaca-se a fotografia, em cores espetaculares.

 Quasímodo e Esmeralda – O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo)
Quasímodo, o deformado sineiro da catedral de Notre Dame, é injustamente condenado a ser açoitado. Quando pede água, apenas uma cigana, Esmeralda, sente compaixão por ele. Quando ela é injustamente acusada de assassinato, ele decide protegê-la. Teve várias versões para o cinema, onde destaco a primeira, de 1934 dirigida por William Dieterle, tendo no elenco Charles Laughton, Maureen Ó’Hara e Edmond Ó’Brien, Teve uma outra, de 1956, dirigida por Jean Delannoy, com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida. Teve também outra, em 2002 em desenho animado dos Estúdios Disney.

 Outros casais famosos da literatura
Dante e Beatriz – A divina comédia (Dante Alighieri)
Don Quixote e Dorotéia - Don Quixote (Miguel de Cervantes)
Mr. Darcy e Elizabeth – Orgulho e preconceito (Jane Austen)
Rhet Buttler e Scarlet Ó’Hara – E o vento levou( Margareth Mitchell)
Cathy Linton & Heathcliff - O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë)



E você, leitor? Gostaria de acrescentar algum casal? Fique à vontade nos comentários.

sábado, 24 de maio de 2014

Padre José de Anchieta


A propósito da recente santificação do Padre José de Anchieta, reproduzo aqui um poema bastante atual de Guilherme de Almeida pedindo oração ao agora, São José de Anchieta:




Prece a Anchieta


Santo: erguesses a cruz na selva escura;

Herói: plantasses nossa velha aldeia;

Mestre: ensinasses a doutrina pura;

Poeta: escrevesses versos sobre a areia!



Golpeia a cruz a foice inculta e dura;

Invade a vila multidão alheia;

Morre a voz santa entre a distância e a altura;

Apaga o poema a onda espumejante e cheia...



Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória

que destes a esta Terra e a sua História,

Pela dor que sofremos sempre nós.



Pelo bem que quisesses a este povo,

O novo Cristo deste Mundo Novo,

Padre José de Anchieta, orai por nós!


Um pouco de literatura brasileira - Mario Quintana

Bilhete
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os monjolos


                               
         Carpinteiros, ferreiros  e pedreiros, Dito Mineiro e o compadre João Oliveira eram sempre requisitados pelo povo das redondezas ali no Sul de Minas  para montar monjolos, construir casas e pontes e realizar consertos em geral. Também eram especialistas em construir as chamadas “tiradas de água”, valas  para que a água de algum córrego chegasse até determinado local. Muitas vezes eram desafiados a fazer a água chegar a algum  local que parecia mais alto que o nível do córrego, mas com paciência e obstinação, conseguiam a proeza: a água chegava e passava a servir,  fosse para movimentar um monjolo, um moinho  ou para  uso doméstico.

          Essas habilidades as aprenderam com Giacomo de Lucca, mais conhecido como Jaco Lateiro,  um italiano que era mestre em trabalhar com folhas de lata e madeira e que também tinha  conhecimentos de mecânica  rudimentar e marcenaria.

              Inicialmente os dois compadres aprenderam a colocar cabos em canecas feitas de latas de azeite , depois a fabricar cartolas e tonéis  para vinho. 

           Antes de começarem a trabalhar sozinhos só levavam à frente os trabalhos depois da aprovação do velho mestre italiano. Com o tempo foram se especializando, aprendendo novas técnicas e aos poucos dispensaram as avaliações do velho, que enciumado, sempre punha defeitos nos trabalhos dos dois.

         – Seu Candido, este monjolo não está bom. A madeira é “molto” pesada e a “acqua” cai “presto súbito”.

         – Olhe, seu Jaco, pode ser, mas ele funciona bem. Já bateu quase dois jacás de milho semana passada.

 –  .........

           Os dois compadres haviam nascido em Andradas e anos mais tarde as famílias se mudaram para Campo Místico, mais ao sul de Minas, onde foram morar  na roça com os pais que trabalhavam no sistema de-a-meia para João Frutuoso, uma espécie de coronel local e que também era fazendeiro.

               Os dois, com quinze anos se apaixonaram pelas irmãs Antônia e Jesuina  ambas com quatorze anos e moradoras ali do bairro. Daí a um ano estavam casados com as duas irmãs e morando parede-e-meia numa casa de barro  no bairro dos Machados.   
  
               Com o passar dos anos cada um dos dois se especializou em alguma atividade embora trabalhassem juntos. Dito era melhor como ferreiro e carapina  e João como pedreiro e construtor de monjolos.  Os dois dispunham de instrumentos rudimentares: um prumo já desgastado pelo tempo, duas colheres enferrujadas,  martelos já meio disformes, talhadeiras, formões  e cepilhos meio sem corte.  Essas falhas nos seus instrumentos eram supridas com suas habilidades e conhecimentos.
  
 Para esquadrinhar os alicerces de uma casa utilizavam o método dos antigos egípicios: uma corda com alguns nós em posições exatas esticada a partir de um mourão determinava os cantos da casa e após isso definiam as linhas de contorno.

Quando eram requisitados para construir alguma ponte, inicialmente examinavam o local e definiam os tipos e tamanho da madeira que empregariam. Depois adentravam o mato e procuravam a madeira ideal quanto ao diâmetro e comprimento das toras que poderiam aparar.

Para os monjolos havia necessidade de usar a madeira correta: a peroba ou a caneleira preta. O cocho era aparelhado com machado e depois acertado com formão. 

Para os monjoleiros em geral, a suprema vergonha era fazer um monjolo que não funcionasse. Seriam alvo de chacota por todo o bairro.

Com Dito e João  isso nunca acontecia, pois seus monjolos sempre funcionavam e inclusive eram alvo de cópias de outros monjoleiros.

Mas copiar um monjolo não era garantia de funcionamento pois havia necessidade de estudar a vazão da água, a altura da queda e outros detalhes.


Ficou célebre a polêmica que  Dito e João tiveram com o mestre Jaco Lateiro quando foram requisitados para construir um monjolo para o fazendeiro Zé Espoleta.  Este queria que construíssem em sua propriedade o maior monjolo da região, mas havia pouca água para movimentá-lo. Além disso o local onde corria a água era plano. Jaco Lateiro logo de início disse que seria impossível mas os dois compadres após estudarem o local afirmaram que seria possível sim.

A polêmica despontou. Nos botecos e vendas da região o assunto era um só: o monjolo do Zé Espoleta. Apostas eram feitas, discussões acaloradas aconteciam e Jaco Lateiro zombava dos dois antigos discípulos.

–“Ma che!!!!” Monjolo naquele lugar, nem com a mão de Deus! Impossível!

Apesar disso Zé Espoleta autorizou Dito e João  a construirem o monjolo, com algumas advertências.

– De Borda da Mata até aqui esse terá que ser o maior monjolo . E não me façam passar vergonha! – sentenciou.

– Pode deixar, seu Zé, em dois meses o senhor terá o seu monjolo funcionando. E o senhor se orgulhará de tê-lo em seu sítio – prometeram os dois compadres – E o “seu” Jaco vai ter que morder a língua!


   Os dois compadres estudaram o local, procuraram a madeira certa e posse de todas as informações iniciaram a construção do monjolo de Zé Espoleta. Com a evolução da construção a polêmica se acirrou e Jaco Lateiro já não se ocupava mais de outro assunto. Passava o tempo todo colocando defeitos na obra dos dois compadres e atazanando Zé Espoleta.

– “Signore Giuseppe”, aquele monjolo não vai funcionar. O senhor vai perder tempo e dinheiro..

– “Seu” Jaco, os dois me garantiram que funcionará. E resolvi apostar nisso – respondia Zé Espoleta, já cansado das implicações do velho italiano.

– Bem, o dinheiro é seu e o senhor é quem sabe...

Zé Espoleta dava toda força aos dois compadres monjoleiros até porque descobriu que Lazo Mendes, seu vizinho e desafeto também estava construindo um grande monjolo em sua propriedade. Zé não queria ficar para trás. O seu tinha que ser o maior monjolo da região! E tinha que terminar antes que Lazo Mendes  terminasse o seu.

Um mês depois os dois compadres já haviam providenciado a tirada de água para o funcionamento do monjolo e chamaram Zé Espoleta para observar o teste. Sem ser chamado, Jaco Lateiro também apareceu por ali dando palpites.

– A água não tem força para movimentar o monjolo. Não vai funcionar!

– Êta velho agourento! –  observou Zé Espoleta.

– Tá torcendo para não dar certo – confirmou João Oliveira.
   O teste foi feito, a água correu normalmente e sua força foi testada e aprovada. Zé Espoleta animado, adiantou aos dois compadres metade do que haviam combinado.

À noite, na venda do Julio Veiaco o assunto despontou de novo  e Jaco Lateiro, irritado com as gozações dos amigos, se enfiou numa garrafa de pinga, embebedou-se até as palavras não se articularem mais e teve que ir para casa carregado.

Alguns dias se passaram e os dois compadres já quase terminavam o monjolo quando algo inusitado aconteceu: numa sexta-feira de manhã a tora onde talhavam o monjolo amanheceu totalmente queimada.

Rebuliço no bairro! Por todo canto os comentários corriam soltos.

– Acho que foi o Jaco, aquele carcamano – sentenciava um.

– Qual o quê! Deve ter sido o Lazo Mendes que mandou queimar o monjolo. Aquele pobretão invejoso – opinava outro

–  Sei não, deve ter sido coisa do demo – pensava alguém.

Os dois compadres ao saberem da notícia ficaram inconformados. Estava já o monjolo quase totalmente talhado e acontece uma coisa dessas. Um desastre!

Zé Espoleta, então, ameaçador, sentenciou:

– Vamos descobrir quem foi e esmigalhar a cabeça dele no pilão do novo monjolo. Podem começar a construção de outro – determinou aos dois compadres.

Zé Espoleta foi ao delegado na cidade e deu parte do ocorrido. O delegado João Beiçudo prometeu investigar o caso e no dia seguinte já providenciou a ida de dois soldados ao local. Examinaram a tora queimada, indagaram os moradores das proximidades e voltaram à cidade para relatar a João Beiçudo que nada apuraram, pois não havia pistas e nenhum morador vira coisa alguma.

Enquanto isso Jaco Lateiro enfiou-se em casa e não saiu por três dias. Essa atitude reforçou as suspeitas de que fora ele que queimara a tora.

O delegado, sem saber o que fazer e pressionado por Zé Espoleta resolveu acusar o italiano mas os dois compadres saíram  em sua defesa.

– Olhe João, o Seu Jaco jamais faria uma coisa dessas. Ele anda meio estranho com a gente mas nunca.......

– Tá bom, tá bom, mas se entendam com o Zé Espoleta então.

Jaco Lateiro, magoado, mudou-se do bairro e foi trabalhar para Lazo Mendes. Foi encarregado de supervisionar a construção do monjolo deste.

Os dias se passaram e os dois compadres trabalharam com zelo e esforço. Terminar o monjolo do Zé Espoleta antes que o do Lazo Mendes ficasse pronto era questão de honra. Ainda mais sabendo que o velho mestre Jaco estava à frente da empreitada rival.

Para evitar qualquer problema Zé Espoleta destacou dois empregados para tomarem conta da tora durante a noite. Queria evitar que alguém a roubasse ou a queimasse de novo. Os dois empregados se revezavam, noite um, noite outro.

Dessa vez tudo transcorreu normalmente e depois de duas semanas finalmente o cocho do monjolo estava pronto. Faltava a haste e a montagem.

Zé Espoleta passava os dias apreensivo imaginando que Lazo Mendes  deveria estar preparando alguma coisa para atrapalhar tudo. Mandou um capanga disfarçado ao bairro vizinho espionar a construção do monjolo de Lazo Mendes. O capanga relatou tudo que viu e Zé Espoleta chamou os dois compadres que lhe garantiram terminar o monjolo no prazo.

Zé Espoleta atendeu a sugestão dos dois compadres para que a inauguração ocorresse no dia 19 de março, dia de São José, padroeiro dos carpinteiros e dia santo por ali.

Ao saber da inauguração do concorrente Lazo Mendes chamou Jaco Lateiro de lhe deu um ultimato:

– Seu Jaco, ou o senhor termina meu monjolo antes do Espoleta ou pode pegar a estrada.

– “Signore Lazaro”, fique tranquilo. O monjolo ficará pronto na data – respondeu o velho mestre.

A partir daí Jaco requisitou mais dois empregados, apressou a tirada de água, fez os testes finais e começou a dar os últimos retoques no monjolo. Enorme, comprido  e pesadíssimo, seria um grande desafio se funcionasse. Mas tinha que funcionar! Jaco precisava dar uma lição nos antigos discípulos e mostrar que era melhor que eles. Mas o prazo era reduzido e isso o incomodava.

Era dia 20 de fevereiro e Jaco precisava terminar o monjolo até dia 15 de março  que naquele ano cairia num sábado. Lazo Mendes programou também uma grande festa para o dia e continuava pressionando o velho italiano.

– Veja lá, seu Jaco, não vá me decepcionar – quero dar uma lição naquele gargantão.

– “Lascia stare...” – resmungava o velho enquanto aplicava  golpes de formão na tora de madeira.

Os dias se passavam e os dois sitiantes se vangloriavam de suas próximas realizações. Na venda do Julio Veiaco o assunto era um só: os dois monjolos.
O assunto já ultrapassava os limites dos bairros e chegava à cidade. No bar do Fredão também o assunto girava e as apostas corriam soltas.

– Dez contra um no italiano!

– Que nada! Cinco a um para os dois compadres.

–  Acho que vai dar empate, os dois lados são bons


O capanga de Zé Espoleta relatou ao patrão os preparativos de Lazo Mendes para a inauguração de seu monjolo e Zé Espoleta, decepcionado,  foi ter com os dois compadres que lhe garantiram que no dia combinado tudo estaria pronto. Mesmo perdendo o prazo para o desafeto, o monjolo de Zé Espoleta funcionaria perfeitamente e seria o maior da região. Atenderia o bairro todo.

Vencer  Lazo Mendes na disputa dos monjolos seria a glória para Zé Espoleta. Por isso mandou preparar uma grande festa para o dia. Convidou o prefeito  e alguns sitiantes vizinhos. Chamou também o Monsenhor Brito para benzer o monjolo. O religioso  porém, recusou.

No bairro dos Guatura o monjolo de Lazo Mendes ficou pronto e um dia antes do sábado da inauguração Jaco Lateiro providenciou tudo: testou a força da água; as pancadas do monjolo no pilão e os últimos detalhes.  Tudo estava correto.

Às dez horas da manhã de sábado Lazo Mendes mandou  iniciar a festa. Ao seu sinal  Jaco  Lateiro retirou a trava do monjolo e o cocho começou a se encher de água. Expectativa geral. Todos esperavam a primeira pancada do monjolo para iniciar o foguetório e a festa.

À medida em que o cocho se enchia de água Jaco Lateiro ansioso, esfregava as mãos.

Finalmente o cocho se encheu de água e.......ficou no mesmo lugar, não desceu. Lazo Mendes olhou para o italiano e fez um movimento dos lábios, como que indagasse:

– O que aconteceu?

O velho italiano, inconformado e envergonhado, tentava baixar o cocho manualmente enquanto pedia ajuda divina:

– “Dio”, me ajude! Me ajude!
Em vão! O monjolo permanecia imóvel, a água transbordando pelo cocho.

Lazo Mendes furioso, aproximou-se do monjolo e também tentou descobrir porque o cocho não baixava. Olhava para Jaco Lateiro com ares de reprovação o que deixava o velho mestre ainda mais desconcertado.

Jaco dava marretadas no corpo do monjolo com a intenção de fazer o cocho baixar. Seus auxiliares com enxadas alargavam o rego de água acima do local onde o monjolo fora instalado.  Tentavam,   com isso, aumentar o fluxo de água e fazer o cocho descer. Mas nada dava certo e as pessoas em volta já estavam ficando inquietas com a demora.

          Lazo Mendes dava socos no ar e vociferava contra o monjolo do italiano. Seria uma tremenda vergonha quando o bairro inteiro soubesse e a noticia chegasse ao bar do Fredão na cidade!

          Por fim, desistiram. Lazo Mendes inconformado montou em seu cavalo e desembestou rumo à cidade. Ele mesmo daria a noticia no bar do Fredão. Pelo caminho ia pensando numa desculpa. Talvez dizer que a madeira do monjolo estava bichada e umedeceu demais ou que alguém acima da colina desviou parte da água reduzindo a vazão.

         Jaco Lateiro sentado numa pedra olhava para o monjolo. As lágrimas escorriam pelo rosto vermelho. Segurava o chapéu com uma mão e com a outra tapava o sol acima dos olhos. Seus ajudantes tentavam minimizar a situação mas Jaco estava inconformado. Não tinha explicação para a falha.
     
         Alguns dias depois, apesar dos compadres não terem conseguido cumprir o prazo inicial prometido, o monjolo de Zé Espoleta ficou pronto e funcionou perfeitamente. Dito  e João João foram alvo de congratulações e admiração no local.

        Apesar de toda a alegria se penalizavam com a desventura do mestre Jaco Lateiro, ridicularizado por todos depois da falha  de seu monjolo.

         Após algum tempo chamaram-no para trabalhar na oficina deles lhe dizendo que havia serviços de confecção de canecas e consertos de panelas, barris e outros artefatos de madeira. O velho, até porque precisava ganhar alguma coisa para sobreviver, aceitou e passava os dias sentado num banquinho martelando as latas e a madeira. Muitas vezes os compadres lhe davam serviços fictícios para ele apenas se ocupar.
              
         Um belo dia o velho desapareceu e ninguém mais o viu por ali. Com o tempo correram noticias de que havia ficado louco e que andava pelas estradas chacoalhando a cabeça e balbuciando:

         -“ ...ma ha funzionato nella prova!” (mas funcionou no teste!)

domingo, 11 de novembro de 2012

Relembrando Machado de Assis



Aqui vão algumas passagens e/ou trechos de algumas de suas obras que me chamaram a atenção (e ainda chamam). A maneira com que Machado manejava as palavras, sua filosofia, sua psicologia, seu jeito peculiar de descrever as ações de seus personagens, tudo tem um sabor especial. É, sem dúvida alguma, o maior escritor brasileiro de todos os tempos!

Trecho de Ressurreição:

"Longa foi a gestação do amor, mas quando ele descobriu o estado de sua alma, não era centelha que se pudesse apagar, mas incêndio que lavrava e consumia tudo"

Trecho de Quincas Borba:

"....as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. / – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía, neste mundo./ – Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?"

Síntese do "humanitismo" também em "Quincas Borba":

"Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."


Última estrofe de "A mosca azul":

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

sábado, 22 de setembro de 2012

Trava-línguas


Um trava-língua é uma frase que é inventada para ser difícil de articular corretamente e pode ser usado como um tipo de jogo de palavra falada (ou cantada). Alguns trava-línguas-produzem resultados que são bem-humorados (ou humor vulgar), quando são mal pronunciados, enquanto outros simplesmente trabalham com a confusão e erros de quem fala a frase.
Nas frases dos trava-línguas  uma sentença com fonemas muito similares  faz com que quando alguem tente falar de maneira rápida as palavras se embaralhem todas e a sentença difícilmente sai da maneira correta. É uma espécie de jogo verbal onde as pessoas precisam dizer com rapidez eclareza, as sentenças que possuem sílabas difíceis de se pronunciar.

Os trava línguas são provenientes da cultura popular, vindas de rimas infantis e podem aparecer como prosa, frases, ou versos, e como o nome diz, sem travar a língua.

Exemplos de trava-linguas:
A)Em português
1)Há quatro quadros três e três quadros quatro.
Sendo que quatro destes quadros são quadrados,
um dos quadros quatro e três dos quadros três.
Os três quadros que não são quadrados,
são dois dos quadros quatro e um dos quadros três.

2)Compro pouco coco porque pouco coco como
3)A batina do padre Pedro é preta
4)Luzia lustrava o lustre listrado e o lustre listrado luzia.
5)Iara agarra e amarra a rara arara de Araraquara.
B)Em inglês( tongue-twisters)
1) She sells seashells by the seashore (Ela vende conchas na praia)
2) Red lorry, yellow lorry (Caminhão vermelho, caminhão amarelo)
3) A big black bug bit a big black bear, made the big black bear bleed blood. (Um grande inseto preto picou um grande urso 
preto e o fez sangrar)

C)Em italiano (Scioglilingua)
1)Sopra la panca la capra canta, sotto la panca la capra crepa (Sobre o banco a cabra canta, sob o banco a cabra morre)
2)Trentatré trentini entrarono a Trento, tutti e trentatré trotterellando di tratto in tratto (Trinta e três trentinos 
entrarem em Trento, todos os trinta e três trotando ao mesmo tempo)

3)Tre tigri contro tre tigri (Três tigres contra três tigres)
D)Em francês (Virelangue)
1)Si six scies scient six saucisses, Six cent six scies scient six cent six saucisses (Se seis serras serram seis salsichas, 
seiscentas e seis serras serrarão seiscentas e seis salsichas)

2)Un chasseur sachant chasser sans son chien est un bon chasseur (Um caçador que caça sem cães é um bom caçador)
3)Chasseur sachez chasser sans chien (Caçadores sabem caçar sem cães)
E)Em espanhol (trebalenguas)
1)Me han dicho un dicho, (Me disseram um ditado)
que dicen que he dicho yo.(que dizem ser eu que o disse)
Ese dicho está mal dicho, (Esse ditado está mal dito)
pues si yo lo hubiera dicho, (pois se eu o tivesse dito) 
estaría mejor dicho, (estaria melhor dito)
que ese dicho que dicen (que esse ditado que dizem)
que algún día dije yo. (que algum dia eu disse)

2)Tres tristes tigres tragaron trigo en un trigal (Três tigres tristes tragaram trigo num trigal

sábado, 11 de agosto de 2012

Sonetos sobre sonetos

Soneto é uma composição poética de 14 versos, dispostos ou em dois quartetos e dois tercetos (soneto italiano ou petrarquiano, o mais cultivado) ou em três quartetos e um dístico (soneto inglês).


Soneto por encomenda
(Lope de Vega,(poeta espanhol nascido no século XVII)


Un soneto me manda hacer Violante,                   Um soneto manda-me fazer Violante
que en mi vida me he visto en tal aprieto;             e em minha nunca me vi em tal  aperto
catorce versos dicen que es soneto:                     catorze versos dizem que é soneto:
burla burlando van los tres delante.                      brinca, brincando vão os tres adiante.

Yo pensé que no hallara consonante                     Pensei que não acharia consoante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;                       e já estou na metade de outro quarteto
mas si me veo en el primer terceto                       se me vejo no primeiro terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.       não há coisa nos quartetos que espante.

Por el primer terceto voy entrando                       No primeiro terceto vou entrando
y parece que entré con pie derecho,                     e parece que entro com pé direito
pues fin con este verso le voy dando.                    pois fim com esse verso lhe vou dando

Ya estoy en el segundo, y aún sospecho               Já estou no segundo e ainda suspeito
que voy los trece versos acabando;                     que vou os treze versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.                     Contai se são catorze, e já está feito.     



Soneto
(Gregório de Matos , poeta satírico brasileiro,1623-1696)

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.



SONETO 233 SONETADO
(Glauco Mattoso, poeta brasileiro)

Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

                

O pote de ouro


Pote de ouro


           Naquela calorenta tarde de novembro João Quirino fazia um novo cercado para o chiqueiro que seus porcos haviam pouco a pouco destruido quando chafurdavam. O enxadão batia no chão e retirava pedaços de terra enlameados. A cada tacada a vala se afundava e se alongava  um pouco mais. Seu sobrinho Onofre, conhecido como Norfo, o ajudava. O local era a baixada do açude e a água escorria barrenta e pegajosa .  João afundava o enxadão e Norfo retirava o excesso com uma pá enferrujada. O calor sufocava.  A cada movimento do enxadão, pingos de suor espirravam no chão e se misturavam com o barro.
       - Tio - disse Norfo - "tô" morrendo de calor.
       - Calma, menino, só mais uma hora e deixamos o resto para amanhã - respondeu o tio.
       - "Tá bão" - assentiu o menino e com o pé apertou a pá na terra.
       João Quirino continuava cavando e em dado momento percebeu que o enxadão bateu em alguma coisa mais dura e ao forçá-lo ouviu barulho de algo se quebrando na terra. Pediu a pá a Norfo, afastou um pouco a terra e percebeu alguns cacos. Examinou-os com as mãos, pensativo.
        - Olha tio, tem mais aqui - disse o sobrinho recolhendo da terra mais alguns pedaços.
        - Deixa eu ver - emendou João Quirino, tomando os cacos e examinando-os. Tem alguma coisa escrita aqui.....deixa ver.......humm......"Cer.....". O que seria isso?
        - Olhe, tio, achei mais alguns - mostrou o menino com mais alguns cacos nas mãos.
        João Quirino tomou-os e tentou juntar os pedaços. Depois de alguns minutos percebeu que tres dos cacos juntos formavam o fundo de uma espécie de vasilha, parecida com uma jarra  e dava para ver nitidamente a inscrição "Cerâmica Lisboeta".
        - Cerâmica lisboeta........hummmm.........o que será isso? - indagou com seu botões examinando o conjunto formado. Norfo - ordenou - pegue aquele bornal ali e coloque isso dentro.
        Depois que encerraram o dia João Quirino foi à cidade, situada a uns cinco quilômetros dali e levou o bornal com os cacos para que Zé Inácio, um dos moradores mais antigos da cidade o examinasse. O menino foi com ele e João lhe deu alguns trocados para comprar uns doces na venda do Modestinho.
        João Quirino chegou à cidade, amarrou o cavalo no varão do bar do Fredão e entrou. Pediu uma pinga, colocou o bornal no balcão e  passou a mão por dentro da alça.
        Enquanto tomava a pinga alguns curiosos se aproximaram.
        - O que tem aí no "inborná", João?
        - Nada - respondeu ele - só uns cacos.
        - Cacos? De telha? De tijolo? E o que vai fazer com isso? Para onde está levando ?
        - Ara, pessoal, é assunto meu. Até logo. E saiu, já meio irritado.
        - Tem coisa aí - resmungou um.
        - Se tem - concordou outro.  E pela janela foram espreitar o trajeto do homem, que desceu a Rua Direita e virou na esquina da rua do cemitério.
        Depois da esquina João Quirino deu alguns passos, olhou para trás certificando-se que os curiosos não o seguiam e chegou à casa do velho.
         Zé Inácio era oficial de cartório da comarca e historiador nas horas vagas. Era considerado bem informado por ser a única  pessoa da cidade que assinava o "Jornal do Rio de Janeiro", que chegava ali com pelo menos uma semana de atraso. Frequentemente era chamado para explicar acontecimentos políticos, economicos,etc., quando também acrescentava alguns pormenores por conta própria. Nessa época Getulio Vargas governava .
                                                                                                                               Bateu na porta e uma voz anasalada gritou lá dentro:
        - Quem é? E o que quer? Estou ocupado
        - 'tarde, seu Zé. É o João Quirino. Trouxe uns cacos para o senhor dar uma olhada.
        -Cacos?? E que tenho eu a ver com isso? Porque veio até aqui? - respondeu o velho lá de dentro, sem abrir a porta.
        -Isso estava enterrado - explicou João Quirino.
        -Enterrado? Onde? - inquiriu o velho com um pouco de curiosidade.
        - No chiqueiro e......
         - No chiqueiro? - interrompeu o velho, irritado - e vem trazer essas porcarias aqui? Vá embora, homem! Tenho mais o que fazer.
         - Seu Zé - insistia o outro -  tem umas letras aqui. Venha ver.
          O velho finalmente veio, abriu a porta e convidou João a entrar.
         - Vamos entrando, então. Deixe-me ver isso aí.
         João Quirino juntos os cacos e o velho leu:
         - "Ceramica lisboeta".....Hummmm..... Isto veio de Portugal! ..... - murmurava o velho  pegando os cacos e entrando em sua sala para examinar melhor com sua lupa.
         Enquanto isso o menino comprava doces na venda do Modestinho. Tonico Teles, um dos italianos entrou na venda e o moleque o informou do achado.
         - Seu Tonico, meu tio achou uns cacos e trouxe para o "seu" Zé Inácio olhar.
         - Cacos de que, moleque? - indagou o italiano, curioso.
         - "Tá" ali com o Seu Zé Inácio - indicou o moleque retesando os lábios na direção da casa do velho.
          Tonico, curioso como só êle,  não se conteve e dirigiu-se à casa do velho onde foi recebido com desdém depois de inventar uma desculpa para chamar Zé Inácio.
         - O que quer aqui, carcamamo? Estou ocupado, não vê? 
         -Ah, seu José.....deixa disso....é que aqueles documentos....
         -Que documentos? Não tem nada aqui, não. Pode ir embora, homem - disse o velho indicando a porta.
          Mas o italiano continuava ali, imóvel, como que aguardando alguma informação extra que pudesse captar. Seus olhos percorriam a sala e se esgueiravam por entre as portas dos outros cômodos. Num deles viu  João Quirino e aproveitou:
          - Compadre João, o senhor por aqui? - disse ele e já adentrando o cômodo no que foi contido pelo velho.
          - Mas será possível? Ainda não foi embora," ô veio tonto"? - exclamou irritado o cartorário e pegando o italiano pelo braço e levando-o até a porta.
          O italiano saiu contrariado mas foi se postar no quintal da casa vizinha de onde imaginava poder ouvir a conversa dos dois homens. Esgueirou-se por entre alguns pés de mamona, pisou em montes de bosta de animais  e finalmente chegou à janela, de onde conseguiu captar palavras e frases soltas:
          - .....potes, para guardar as jóias e pertences.......alguns.....ouro..... patacas....
          - Hummmmmmmmm........- pensava o italiano - tem coisa nisso aí.
          Ouviu mais um pouco da conversa e se convenceu de que o homem havia achado algo valioso. Saiu dali e dirigiu-se à casa de seu amigo e compadre Tonico Teles.
          - Tonico - chamou ofegante o outro - vem cá. Tenho novidades. Sei não, mas acho que o João Quirino achou um pote de ouro no chiqueiro dele.
          - Pote de ouro no chiqueiro? E como foi parar lá? - perguntou o outro incrédulo.
          - Ma che bestia! - vociferou o outro italiano e contou o resto da história.    
          - Nossa! Um pote de ouro! - exclamou o outro depois de ouvir a história - mas pelo jeito ele achou só um pedaço do pote. né? E se a gente.......
          - Se a gente o quê? - indagou o outro.
          - Bom......quero dizer.......a gente podia.....
          - Caspite! Ele achou só pedaços do pote. Isso mesmo. O ouro deve estar lá então. Que tal se a gente.......
          Nem um nem outro queria dizer, mas ambos estavam babando de vontade de ir até a chácara de João Quirino procurar o suposto ouro do pote. Um olhava para o outro e este desviava o olhar. Finalmente não se contiveram e disseram quase ao mesmo tempo:
          - Vamos para lá!!!
          Gusto Fidelis foi para os fundos da casa, pegou um saco e um enxadão enquanto Tonico Teles ia para sua casa pegar uma lanterna de querosene. Já eram quase seis da tarde e daí a pouco começaria a escurecer. Combinaram que iriam lá com a noite caindo porque não queriam que outras pessoas os vissem nem o próprio João Quirino.  
          Já eram seis e meia da tarde quando os dois italianos se dirigiram à chácara de João Quirino. Um pouco antes da saída da cidade , na Rua Direita, ficava o Bar do Fredão, mas os dois desviaram por uma viela para evitar se encontrarem com algum conhecido.
          -Tonico - disse Gusto, parando de andar e fitando o companheiro - estive pensando. E se o João aparece por lá enquanto estamos procurando o pote? Se acharmos ele vai querer tudo pois afinal está em sua propriedade.
          - Ih, é mesmo - concordou o outro italiano - precisamos dar um jeito de retê-lo aqui na cidade. Mas como?
          - "Peraí", ele deve estar ainda lá no bar do Fredão. E se a gente........
          - E se a gente o quê? - interrompeu o outro.
          - Tava pensando, aquele menino veio com êle, né? O sobrinho dele.
          - Sim? - indagou o outro ansioso para conhecer o resto do plano.
          - A gente volta lá na venda. Deixa uns tostões com o moleque e manda ele comprar pinga para o João Quirino . Do jeito que ele é, vai beber tudo hoje mesmo e volta "cambetiano" para a chácara noite alta. Enquanto isso vamos lá, cavocamos, pegamos o pote e voltamos para cá. Ninguem vai perceber. O que acha da idéia, Tonico?
          - Perfeita! - exclamou o outro esfregando as mãos - tenho aqui duas moedas. Você tem alguma coisa aí? Precisamos dar o dinheiro para o moleque comprar a garrafa de pinga, então.
          Gusto chacoalhou os bolsos da calça, fez um gesto de reprovação com os lábios e informou o outro de que não tinha nenhum dinheiro.
          - Ah, bom eu já sabia - comentou o outro contrariado. Bom, duas moedas deve dar para comprar uma garrafa. Vamos passar na venda do Modestinho, o moleque deve estar lá ainda.
          Fizeram então meia volta, se esgueiraram por algumas vielas e quintais abertos e chegaram à venda. De fato o moleque ainda estava lá comendo doces na porta. Gostava de "bolachão" uma espécie de biscoito que o furgão da Doces Neusa entregava toda semana nas vendas da região.
         Os dois chegaram proximo à porta da venda e chamaram o moleque. Não queriam se aproximar muito para não dar de cara com mais curiosos.
         - Ô moleque vem cá. Toma aqui duas moedas para comprar uma garrafa de pinga. Depois leve-a ao seu tio e diga que foi presente nosso. Mas vá já, hein? - recomendaram em uníssono.
         Nem esperaram resposta e retomaram o caminho da chácara de João Quirino e às vezes olhavam para trás para se certificarem de que não estavam sendo seguidos.
         Na porta da venda o moleque segurava as duas moedas e comia o resto de um bolachão que havia comprado. Olhava para as moedas em sua mão. Duas. Daria para comprar mais alguns bolachões. Não! Os dois italianos pediram para comprar pinga e não bolachão. Ah! Mas aqueles dois tontos..........poderia.........bolachão.........deliciosos....... Sua boca salivava. Nisso entra um freguês e compra cinco bolachões. O menino conta os que restaram na vitrina. Quatro. E se chegar mais alguem e comprar tudo? Hummmmm........bem.......será que se comprar a pinga ainda sobra alguma coisa? 
          - Seu Modestinho - pergunta o moleque - quanto custa uma garrafa de pinga?
          - Moleque, tá louco? Nessa idade e bebendo pinga? Quer virar um cachaceiro que nem o seu tio? - respondeu o vendeiro.
          - Não, seu Modesto.  A pinga é para o meu tio mesmo. O "seu" Gusto que mandou comprar - respondeu o moleque.
          - Ah, bom.  A Miss Caramba custa "destão" (*) e a Valencia custa oito. Qual delas o seu tio quer? Mas espere aí.... O Gusto mandou comprar pinga para o seu tio? E por que? - indagou o vendeiro curioso.
          - Sei não, seu Modesto. Ele disse que era presente. Se eu levar a Valencia quantos bolachões dá para comprar com o troco? - perguntou o moleque.
          - Dois - respondeu o vendeiro.
          - Então levo essa e mais os dois bolachões, seu Modesto. Aqui tem duas moedas de cinco. - e entregou as moedas ao vendeiro que lhe passou a garrafa de pinga e ia embrulhando os bolachões quando foi interrompido:
          - Não precisa embrulhar não, vou comer agora mesmo.
          - Tá doido, moleque? Já comeu tres e vai comer mais dois? Isso faz mal.
          O moleque nem lhe deu ouvidos. Pegou os dois bolachões, sentou-se na calçada e pôs-se a comê-los.
          Nesse meio tempo os dois italianos chegaram à chácara de João Quirino. Procuraram o local do chiqueiro e encontraram a vala ainda aberta. Certificaram-se de que não foram seguidos, acenderam a lanterna  e começaram a cavar revezando-se.
         – Olhe, compadre, foi aqui que ele achou os cacos. O resto do pote deve estar aqui perto. Vamos cavar rápido.
         – Tonico – indagou o outro – será que tem só um pote? E se tiver mais que um?
         – Bem, cavando a gente descobre – e batia o enxadão com força enquanto o outro se encarregava retirar o excesso de terra com uma pá que João Quirino havia largado por ali.
         A noite ia aos poucos se fechando e os dois ali cavando. Á medida que a vala ia se aprofundando os dois compadres se revezavam nas tarefas. Suavam. O fogo da lanterna de querosene ia se esvaindo. Os dois praguejavam. Cavavam já há duas horas e nada de pote de ouro. Só cacos.
         Enquanto isso na cidade, o menino havia entregue a garrafa de pinga a João Quirino e este intrigado com o inesperado presente inquiriu o sobrinho:
         – Presente para mim? Tem coisa, aí! Esses carcamanos estão aprontando alguma coisa. Bom, já que me deram vamos experimentar agora mesmo.
E sorveu um gole na própria garrafa. 
– Bem, agora vamos passar lá no seu Zé Inácio para ver o que ele descobriu sobre aqueles cacos que “tavam” no chiqueiro.
Sorveu mais um gole. O menino o acompanhava nos passos e às vezes passava as mãos na barriga,  que doía. Havia comido cinco bolachões e o efeito estava se fazendo sentir.
– Ai, tio que dor de barriga....
– O que você comeu, Norfo? – indagou o tio.
– Eu? Bem.....nada.....só uns doces que.....– e não conseguiu terminar a frase.
Mal teve tempo de se recostar num muro e começou a vomitar. O tio olhava aquilo com asco. Sabia que o menino era louco por doces. Devia ter comido além da conta e agora mais essa! Já estavam atrasados para voltar à chácara, a noite já havia chegado e ainda precisava passar na casa do cartorário.
Depois de alguns minutos o menino se recompôs e os dois se dirigiram à casa do velho. Entraram. Sobre a mesa da sala alguns livros, algumas anotações e os cacos  dentro de uma bandeja de ferro.
– E então, “seu” José, o que me diz? Será que é mesmo algum pote de ouro? – indagou João Quirino esperando ansioso uma resposta positiva.
– Qual pote, que nada! Isso aqui é apenas parte de algum objeto quebrado que alguém jogou por lá. Com o tempo foi se afundando na terra e no barro. O senhor só os achou porque cavou no local exato onde estavam. Isso aqui não vale nada. Se fosse mesmo de um  pote, de ouro ou não, ele seria mais alto, mas veja aqui – e apontava para os cacos – estes aqui são de algum objeto mais baixo, uma jarra ou uma bandeja talvez.     
– .......hummm......– interrompeu João Quirino, então trouxemos à toa isto para cá, né?
– Sim, assentiu o cartorário. Pesquisei nos meus livros e não achei nada. Isto veio de Portugal com certeza, mas não vale nada. Pode levar os cacos de volta – e entregou-os a João Quirino depois de colocá-los no bornal.
– “Ta bão”, seu Zé, desculpe o incômodo. Mas é que pensei que valesse alguma coisa ou que tivesse um pote de ouro por lá.
– Pote de ouro......bah! – e praticamente empurrrou tio e sobrinho para fora enquanto se despedia dos dois.
Já na rua, João e o sobrinho não tendo mais nada que fazer na cidade resolveram voltar à chácara. Nessa hora uma fina garoa impregnava suas roupas e João sorveu mais um gole da garrafa enquanto o menino se incomodava com o frio que começava a fazer. Até a chácara eram uns cinco quilômetros e João propôs aguardarem no bar do Fredão que a garoa passasse. Foram para lá. Ao passarem em frente à venda do Modestinho, que nesse momento fechava as portas o moleque levantou a cabeça e olhou para a vitrina de doces na esperança de que houvesse sobrado algum bolachão. Nenhum. Frustrou-se. Seguiu o tio pensando que talvez o Fredão também vendesse bolachões em seu bar.  A garoa, nesse momento já havia se transformado numa chuva rala.
Ao entrarem, deram de cara com os curiosos que antes haviam questionado o conteúdo do bornal.
– E então, João? Quanto ouro tinha no pote? – provocou um.
– Quantas patacas? – ironizou outro.
– Hahahahahaaaaha.......– gargalharam em coro enquanto olhavam para João com desdém.
João, sem responder, mas cheio de raiva recostou-se a um canto, abriu a garrafa e tragou mais um gole da pinga. Achou que estava deliciosa. Olhou para o pessoal que ainda gargalhava, consultou o que sobrara na garrafa e decidiu-se: beberia o resto. Afinal, com o frio que fazia precisava mesmo se esquentar um pouco e aquela garrafa que os dois italianos lhe deram viera a calhar. Os dois italianos. Mas porque será que lhe deram uma garrafa de pinga de presente? Ambos tinham fama de sovinas. Tinha coisa, aí, com certeza. Bem, poderia verificar isso num outro dia. O importante é que agora sentia-se em condições de enfrentar os gozadores ali no bar.
Na chácara os dois italianos embaixo da chuva continuavam a cavar. A terra que removiam misturada com a água da chuva havia se transformado num imenso barreiro. Já nem conseguiam cavar direito. Escorregavam. Levantavam-se, brandiam o enxadão e a pá mas parecia que a vala continuava do mesmo jeito. Em alguns pontos só viam a água que empoçava.
– Que horas será que são, compadre? – perguntou Tonico, apoiando-se no cabo do enxadão enquanto Gusto tentava retirar o barro com a pá.
– Acho que umas nove da noite – respondeu o outro.
– Nossa! Já estamos cavando há quase duas horas e nada do tal pote. Sei não, compadre, acho que não tem pote nenhum por aqui. Nem de ouro nem de nada. Vamos é pegar um “baita difrusso” aqui com esse frio e esse barro aqui
– Também acho, compadre, mas aquele porquera do Zé Inácio é que falou que tinha pote de ouro aqui. Eu escutei direitinho.
– Compadre – ponderou o outro – pense bem. Se o Zé Inácio tivesse falado para valer que tinha pote  de ouro, você não acha que o João Quirino é que estaria por aqui cavando em nosso lugar?
–...hummmm.....é verdade, Gusto. Ainda mais com aquele velho muquirana do Zé Inácio também sabendo. No mínimo os dois estariam aqui. Acha que ele não viria aqui com o João? Com certeza que sim!
– Pois é, compadre. Acho melhor largamos isso aqui e voltarmos para a cidade. Aqui não tem merda nenhuma de pote de ouro. Cáspite!
– É. Vamos embora. Largue tudo isso aí, e pronto!
E se foram em direção à cidade.

No bar do Fredão, João Quirino tentava equilibrar-se nas pernas mas sentia que faltava um ponto de apoio. Apontava para os que zombavam dele ali e os ameaçava:
– Vamos.....seus......vamos ver quem é....– e cambaleava. A certa altura caiu no chão e como não conseguia se levantar ficou ali mesmo, sendo motivo de mais chacota.
O menino, a um canto, morto de vergonha e medo, tiritava de frio. Fredão se aproximou e deu-lhe um gole de groselha.
– Tome, moleque. Beba isso, vai te esquentar um pouco.
– Ei, pessoal, venham ver uma coisa – chamou um dos presentes – vejam aquilo ali. Aqueles dois parece que caíram num monte de barro.
E todos se dirigiram à porta do bar. Eram os dois italianos, que frustrados, voltavam da chácara. Completamente encharcados de barro passaram direto e nem sequer se atreveram a olhar para a porta do bar certos que seriam alvo de troça.
– Mas que diabos! Onde esses dois estavam? E olhe lá, um deles tem um enxadão. – observou alguém.
No canto o menino se levantou e também foi à porta observar o que se passava. Viu os dois velhos encharcados e com o enxadão às costas e começou a se lembrar do que ambos disseram antes de lhe dar o dinheiro para a pinga e os doces.
– Seu Fredão, eles mandaram eu comprar pinga para o tio e me deram dinheiro para comprar doce – informou.
– Dinheiro para comprar pinga para o seu tio? Mas que negócio é esse, moleque? – indagou Fredão, já bastante interessado.
– É. Logo depois que meu tio conversou com o “seu” Zé Inácio. Meu tio pensou que os cacos que achou eram de um pote de ouro que “tava” enterrado  lá no chiqueiro.
– Pote de ouro no chiqueiro? – indagou Fredão tentando concluir – mas será possível que esses dois bocós........
– Hahahahahahahahahaha........– gargalharam em uníssono os presentes – quer apostar como os dois foram lá na chácara do homem procurar o tal pote de ouro? Hahahahahaha.....
E o bar todo foi uma gargalhada só. O menino também se empolgou e entrou no clima. João Quirino dormia pesadamente no chão e Fredão vendo que já estava na hora de fechar o bar, determinou:
– Bem, larguem o homem aí. Joguem um “baxero” nele para não morrer de frio. Você  moleque, deite-se ali  até amanhã cedo e se cubra com isto –   e apontou para um sofá velho e rasgado enquanto entregava ao moleque um pedaço de cobertor ensebado.

No outro dia cedo quando Fredão abriu novamente as portas do bar João Quirino acordou, movido pelo barulho. Sentiu que havia se mijado todo durante o sono, levantou-se envergonhado e acordou o menino. Fredão nada lhe falou sobre a peripécia frustrada dos dois italianos.
Ao chegar à chácara João estranhou o tamanho da vala que havia iniciado no dia anterior.
– Mas o que aconteceu aqui? – indagou para si mesmo enquanto olhava para o monte de barro e a desordem total em que estava o local.
– Tio, o Fredão disse que foi o “seu” Gusto e o “seu”Tonico que vieram aqui cavocar para ver se achavam o pote de ouro – falou o menino.
– Pote de ouro? Aqueles dois bocós? Hahahahaha.....eu não acredito.......se encheram de barro pensando que tinha pote de ouro aqui......hahahahahahahaaha
João recostou-se no mourão do chiqueiro e ria a mais não poder. Olhava para o sobrinho e ambos riam. Gargalhavam.
Na cidade, logo que Fredão terminou de abrir o bar e dar um acerto geral na coisas, os costumeiros desocupados começaram a aparecer e o assunto era um só: o pote de ouro que os italianos foram procurar no chiqueiro do João Quirino. Cada um que chegava era informado do fato e as gargalhadas rolavam soltas .
Todos queriam encontrar os dois italianos para caçoar dos mesmos. Em vão. Por duas semanas ninguém os viu na cidade. As casas fechadas. Na venda do Modestinho nem apareceram. Deviam ter mantimentos em estoque pensava o vendeiro. Mas uma hora acaba e eles terão que aparecer.
A história se propagou e João Quirino mandou colocar uma placa na entrada da sua propriedade: “Chácara do pote”.