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sábado, 24 de maio de 2014

Padre José de Anchieta


A propósito da recente santificação do Padre José de Anchieta, reproduzo aqui um poema bastante atual de Guilherme de Almeida pedindo oração ao agora, São José de Anchieta:




Prece a Anchieta


Santo: erguesses a cruz na selva escura;

Herói: plantasses nossa velha aldeia;

Mestre: ensinasses a doutrina pura;

Poeta: escrevesses versos sobre a areia!



Golpeia a cruz a foice inculta e dura;

Invade a vila multidão alheia;

Morre a voz santa entre a distância e a altura;

Apaga o poema a onda espumejante e cheia...



Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória

que destes a esta Terra e a sua História,

Pela dor que sofremos sempre nós.



Pelo bem que quisesses a este povo,

O novo Cristo deste Mundo Novo,

Padre José de Anchieta, orai por nós!


Um pouco de literatura brasileira - Mario Quintana

Bilhete
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda."

domingo, 11 de novembro de 2012

Relembrando Machado de Assis



Aqui vão algumas passagens e/ou trechos de algumas de suas obras que me chamaram a atenção (e ainda chamam). A maneira com que Machado manejava as palavras, sua filosofia, sua psicologia, seu jeito peculiar de descrever as ações de seus personagens, tudo tem um sabor especial. É, sem dúvida alguma, o maior escritor brasileiro de todos os tempos!

Trecho de Ressurreição:

"Longa foi a gestação do amor, mas quando ele descobriu o estado de sua alma, não era centelha que se pudesse apagar, mas incêndio que lavrava e consumia tudo"

Trecho de Quincas Borba:

"....as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. / – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía, neste mundo./ – Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?"

Síntese do "humanitismo" também em "Quincas Borba":

"Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."


Última estrofe de "A mosca azul":

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

sábado, 11 de agosto de 2012

Sonetos sobre sonetos

Soneto é uma composição poética de 14 versos, dispostos ou em dois quartetos e dois tercetos (soneto italiano ou petrarquiano, o mais cultivado) ou em três quartetos e um dístico (soneto inglês).


Soneto por encomenda
(Lope de Vega,(poeta espanhol nascido no século XVII)


Un soneto me manda hacer Violante,                   Um soneto manda-me fazer Violante
que en mi vida me he visto en tal aprieto;             e em minha nunca me vi em tal  aperto
catorce versos dicen que es soneto:                     catorze versos dizem que é soneto:
burla burlando van los tres delante.                      brinca, brincando vão os tres adiante.

Yo pensé que no hallara consonante                     Pensei que não acharia consoante
y estoy a la mitad de otro cuarteto;                       e já estou na metade de outro quarteto
mas si me veo en el primer terceto                       se me vejo no primeiro terceto
no hay cosa en los cuartetos que me espante.       não há coisa nos quartetos que espante.

Por el primer terceto voy entrando                       No primeiro terceto vou entrando
y parece que entré con pie derecho,                     e parece que entro com pé direito
pues fin con este verso le voy dando.                    pois fim com esse verso lhe vou dando

Ya estoy en el segundo, y aún sospecho               Já estou no segundo e ainda suspeito
que voy los trece versos acabando;                     que vou os treze versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.                     Contai se são catorze, e já está feito.     



Soneto
(Gregório de Matos , poeta satírico brasileiro,1623-1696)

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.



SONETO 233 SONETADO
(Glauco Mattoso, poeta brasileiro)

Já li Lope de Vega e li Gregório,
pois ambos sonetaram do soneto,
seara na qual minha foice meto,
tentando fazer algo meritório.

Não quero usar o mesmo palavrório,
mas pilho-me, no meio do quarteto,
montando a anatomia do esqueleto.
No oitavo verso, o alívio é provisório.

Contagem regressiva: faltam cinco.
Mais quatro, e fico livre do problema.
Agora faltam três... Deus, dai-me afinco!

Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!

                

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Literatura - Fernando Pessoa em inglês


As to a child                                                                                      

As to a child , i talked my heart asleep                                        
With empty promise of the coming day,                                       
And it slept rather for my words made sleep                                              
from a thought of  what their sense did say                
For did it care for sense, would it not wake                            
And question closer to the morrow’s pleasure?                        
Would it not edge nearer my words, to take
The promise in the meting of its measure?                                  
So, if  is slept, ‘twas that it cared but for     
 present sleepy use of promised joy,                                                            
Thanking the fruit but for the forecome flower          
hich the less active senses best enjoy..                                         
              Thus with deceit do I detain the heart                           
              Of which deceit’s self knows itself a part.     
                                                                             
Como criança que fôra

Como criança que fôra, o coração embalo
Com o vago prometer do dia de amanhã
E ele adormece mais porque o falar faz sono
Que por achar sentidos no falar que digo
Pois, se os pensara acaso não acordaria
Para inquirir ao certo o dia de amanhã?
Não cingiria o jeito das palavras para
A promessa conter na forma que medisse?
E assim, se dorme, apenas é por se entregar
Ao de hoje sono que há na prometida festa
Agradecendo o fruto pela prévia flor
Que os sonos menos acordados melhor gozam
                  Eis que de enganos só meu coração detenho
                  Do qual o mesmo sabe que é uma parte.

domingo, 10 de junho de 2012

Literatura - Eugenio Montale "Na fumaça"


Nel Fumo                                                               
                (Eugenio Montale - Premio Nobel de Literatura em 1975)

Quante volte t’ho atteso alla stazione                          
Nel freddo, nella nebbia. Passeggiavo                          
Tossicchiando, comprando giornali innominabli,
Fumando Giuba, poi soppresse dal ministro                               
Dei tabacchi, il balordo!                                                  
Forse un treno sbagliato, un doppione oppure una    
Sottrazione. Scrutavo le carriole                                    
Dei facchini se mai ci fosse dentro                                
Il  tuo bagaglio, e tu dietro, in ritardo,                            .
Poi apparivi, ultima. È un ricordo                                  
Tra tanti altri. Nel sogno mi perseguita.                         .


   Na fumaça
            
Quantas vezes te esperei na estação
no frio, na neblina. Andava de um lado para outro
com minha tossezinha, comprando jornais inomináveis
fumando Giuba, depois proibido pelo ministro
Dos tabacos, o idiota!
Quem sabe um trem errado, ou desdobrado, ou talvez
cancelado. Examinava os carrinhos
dos carregadores para ver se por acaso não levavam
dentro tua bagagem, e tu seguindo, atrasada.
Por fim aparecias, a última. É apenas uma lembrança
Entre tantas outras. No sonho me persegue.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Literatura - Camões plagiou Petrarca?


Camões plagiou Petrarca?

Alguns afirmam que o famoso soneto "Alma minha"(Soneto 19) de Camões é um plágio do Soneto 31 de Petrarca, pois as primeiras estrofes dos dois poemas são praticamente identicas como se pode ver abaixo.
Camões nasceu e morreu no século XVI (dois séculos após Petrarca) e teve acesso às obras deste último e de outros também, claro.
Acredito mais numa homenagem de Camões a Petrarca e não em plágio, pois observem que as demais estrofes não tem nada de semelhantes.
Bem, leiam os dois poemas e tirem suas conclusões.


Soneto 31 de Petrarca

Questa anima gentil che si diparte,      
anzi tempo chiamata a l'altra vita,      
se lassuso è quanto esser dê gradita,    
terrà del ciel la piú beata parte.

S'ella riman fra 'l terzo lume et Marte,
fia la vista del sole scolorita,
poi ch'a mirar sua bellezza infinita
l'anime degne intorno a lei fien sparte.

Se si posasse sotto al quarto nido,
ciascuna de le tre saria men bella,
et essa sola avria la fama e 'l grido;

nel quinto giro non habitrebbe ella;
ma se vola piú alto, assai mi fido
che con Giove sia vinta ogni altra stella.

(tradução livre)

Esta alma gentil que partiu,
antes do tempo, chamada à outra vida,
terá no céu segura acolhida
terá do céu a mais beata parte.

Se ela ficar entre a terceira luz e Marte,
será a vista do sol descolorida
depois virá, toda alma ao céu subida
em torno dela olhar sua beleza infinita

Se pousar abaixo do quarto ninho,
nenhuma das três será mais bela,
que esta só, espalhada a fama e o grito;

No quinto giro não chegara ela;
mas se voar mais alto, em muito confio
ser vencido Júpiter e cada outra estrela.




SONETO 19  de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor, que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.