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sábado, 7 de junho de 2014

Um pouco de literatura brasileira - Julio Ribeiro

Aqui um trecho especial de "A carne", escrito em 1888, onde o escritor realista Julio Ribeiro relata impressões de sua viagem de trem da Estação da Luz até Santos, passando pelo ABC (na época Santo André ainda era chamada de São Bernardo)

"Da capital a Santos foi que rolei em pleno desconhecido, foi que se me deparou assunto novo de estudo.

Os campos famosos de Piratininga constituem um platêau que coleia suave, em outeiros mansos, emoldurado à direita pelos cabeços longínquos da Serra do Cubatão, à esquerda pelos visos azulados da Cantareira, pelos picos verdoengos do Jaraguá.

De leste a oeste, um pouco ao norte da cidade, rola o Tietê profundo, negro, taciturno, formando um vale extensíssimo, muito largo.

A conformação atual desse vale, a turfa pantanosa que o constitui em grande parte, o alagamento anual que nele se opera, tudo atesta que ele foi em tempo um lago enorme, sinuoso, semeado de ilhas, um mar de água doce, que ia talvez até Moji das Cruzes. A serra da Cantareira e a vertente norte da serra do Cubatão deram batalha aluvial ao mediterrâneo doce, venceram-no, entupiram-no: o vale do Tietê é a conquista.

As correntes de águas perenes conglobaram-se, aunaram-se, cavaram leitos, formaram os rios que hoje retalham a planície.

Vi de relance o casarão que se está fazendo para comemorar independência, ou melhor, para comemorar... por que não dizê-lo ? para comemorar o desarranjo funcional que levou o Senhor D. Pedro de Bragança e apear-se ali, às quatro horas da tarde do dia 7 de setembro de 1822.

Não há ver nestas paragens aflora maravilhosa das nossas zonas do oeste, os perovões, as batalhas enormes, os jequitibás de cinco metros de diâmetro: a vegetação arborescente é enfezada, baixa, quase anã. Não é basta, contínua: forma reboleiras, restingas, capões, ilhas de verdura, no amarelado pardo do campestre interminável.
Esta região é considerada estéril, maninha: nada mais injusto. Verdade é que não vinga aqui o cafeeiro, que a cana é somenos a de Capivari e mesmo a de Santos, que o algodoeiro não se pode comparar com o de Sorocaba; mas, por Deus! nem só café, açúcar e algodão é riqueza.

A vinha medra de modo assombroso: com uma cultura inteligente, com uma poda antecipada, poderia ela produzir em princípios de dezembro, evitando as chuvas de janeiro que lhe águam os bagos, que lhes deturpam os racimos.

Em São Caetano, em terras outrora baldias, de que ninguém fazia caso, há vinhedos formosíssimos plantados por italianos. A vista alegra-se com a simetria das parreiras, o coração rejubila com a idéia de uma prosperidade imensa, geral, em futuro não remoto, por todos os ângulos de nosso... de nossa província eu ia escrevendo estado.

As hortaliças são enormes: um dia destes vi eu uma couve vinda de São Paulo que era um monstro de desenvolvimento: tinha folhas de cinqüenta centímetros de diâmetro menor; media-lhe o caule muito mais de dois metros.

E por que não há de se cuidar do trigo? os antigos cuidaram com sucesso: em São Paulo comeu-se muito pão de trigo da terra. Ninguém ignora o que a agricultura científica tem feito das landes infecundas da Gasconha. Pois os campos de Piratininga não admitem confronto com as landes da Gasconha: são-lhes infinitamente sublimados.

E a indústria pastoril? Que riqueza imensa a se oferecer espontânea.

De São Bernardo em diante a planície muda de aspecto. Os capões, as restingas vão-se convertendo em um matagal basto, contínuo, verde-negro. Aqui e ali, no dorso de uma colina, no cabeço de um outeiro, rubro, semelhante a uma escoriação, serpeia o leito de um caminho.

Na chã que se vai gradualmente alteando destacam-se as gramíneas, moitas de plantas baixas, de folhas escuras, de flores roxas, muito grandes.

De um e de outro lado do trem perpassam, fogem sombras compactas, fortes: são os primeiros topes da serra. Em vários lugares desnuda-se o granito lavado pelo enxurro, arrebatado pelas brocas do mineiro, esfacelado pela marreta do britador.

Em todas as árvores vêem-se parasitas, de flores escarlates, de folhas lustrosas. A máquina, arfando, em carreira vertiginosa, arrastando o tender, arrastando a longa cauda de carros, triunfante, rumorosa, sobe, galga, vence, domina, salva o declive áspero, rola em terreno plano. O ar torna-se mais fino, mais úmido, a luz mais viva, mais mordente.

À esquerda, rápidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se montanhas, visos, picos, paredões, agruras, despedaçamentos de cordilheira.

À direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminência, casebres miseráveis; sobre o rechano uma igrejinha rústica, desgraciosa, malfeita, com três janelas, com dois simulacros de torres,
a picar de branco o azul do céu e o escuro da mata.

É o alto da serra."

domingo, 1 de junho de 2014

Casais famosos da literatura universal

Capitu e Bentinho - Dom Casmurro (Machado de Assis
Bentinho é apaixonado por Capitu, mas alimenta suspeitas que seu melhor amigo seja o amante de sua mulher. Deu origem ao filme “Capitu” de 1968, dirigido por Paulo Cesar Sarraceni com roteiro escrito por Paulo Emilio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles. No elenco, Isabella(Capitu), Othon Bastos(Bentinho) e Raul Cortez (Escobar).


Tristão e Isolda -lenda medieval
História lendária sobre o trágico amor entre o cavaleiro Tristão, originário da Cornualha, e a princesa irlandesa Isolda De origem medieval, a lenda foi contada e recontada em muitas diferentes versões ao longo dos séculos. Também foi levada para o cinema em 2006, dirigido por Kevin Reynolds. No elenco James Franco, Sophia Myles e Rufus Sewell


 Romeu e Julieta – William Shakespeare
Suas famílias são inimigas há tempos, mas isso não impediu de os dois se apaixonarem e morrerem por esse amor. A maior história de amor de todos os tempos. Teve inúmeras versões para o teatro, ópera e cinema e até hoje suscita admiração . Destaco aqui a de1968 dirigida por Franco Zefirelli, com Olivia Hussey, Leonard Whiting e Michael York. Foi grande sucesso de bilheteria e é considerada uma das melhores versões para o cinema.

 Cyrano e Roxane –Cyrano de Bergerac (Edmond Rostand)
A história se passa entre 1640 e 1655. Cyrano de Bergerac é um herói romântico, que combate a covardia, a estupidez e a mentira. Ele ama sua prima, Roxane, moça inteligente, mas um tanto pedante, que gosta de ser cortejada com palavras bonitas e originais. O jovem Cristiano também a ama, mas não sabe falar com brilhantismo, ao contrário de Cyrano, que tem o dom da palavra. Cyrano, sem esperanças de conquistar a prima, em razão de ser bastante feio, resolve ajudar Cristiano a conquistá-la através das palavras.Há várias adaptações para o cinema (inclusive a comédia de 1987 interpretada por Steve Martin e Daryl Hannah, "Roxanne"), mas a melhor é dirigida por Jean-Paul Rappeneau em 1990, com reconstituição de época irrepreensível, tendo recebido vários prêmios, inclusive o de melhor ator para Gerard Depardieu no Festival de Cannes (ele também foi indicado para o Oscar)

 Ulisses e Penélope – A odisséia (Homero)
Com o fim da Guerra de Tróia, o guerreiro Ulisses retorna para sua amada Penélope, na ilha de Ítaca. No caminho, entre outros perigos, ele enfrenta cíclopes, é tentado por sereias e encontra a brucxa Circe, que transforma metade de seus homens em porcos. Somente dez anos depois, Ulisses chega a seu destino, porém ainda tem de se haver com os pretendentes que assediam sua esposa. Foi levado para o cinema em 1954, dirigido por Mario Camerini e estrelado por Kirk Douglas e Silvana Mangano. O luxo da produção coloca-a acima da média dos épicos produzidos na Itália naquele período; entre os pontos altos, destaca-se a fotografia, em cores espetaculares.

 Quasímodo e Esmeralda – O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo)
Quasímodo, o deformado sineiro da catedral de Notre Dame, é injustamente condenado a ser açoitado. Quando pede água, apenas uma cigana, Esmeralda, sente compaixão por ele. Quando ela é injustamente acusada de assassinato, ele decide protegê-la. Teve várias versões para o cinema, onde destaco a primeira, de 1934 dirigida por William Dieterle, tendo no elenco Charles Laughton, Maureen Ó’Hara e Edmond Ó’Brien, Teve uma outra, de 1956, dirigida por Jean Delannoy, com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida. Teve também outra, em 2002 em desenho animado dos Estúdios Disney.

 Outros casais famosos da literatura
Dante e Beatriz – A divina comédia (Dante Alighieri)
Don Quixote e Dorotéia - Don Quixote (Miguel de Cervantes)
Mr. Darcy e Elizabeth – Orgulho e preconceito (Jane Austen)
Rhet Buttler e Scarlet Ó’Hara – E o vento levou( Margareth Mitchell)
Cathy Linton & Heathcliff - O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë)



E você, leitor? Gostaria de acrescentar algum casal? Fique à vontade nos comentários.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Sciur padrun - Gigliola Cinquetti

https://www.youtube.com/watch?v=IdB2y4MOMy8

Quando Gigliola Cinquetti esteve em São Paulo em 1969, se apresentou no antigo Teatro Paramount e quando cantou essa música o teatro quase veio abaixo. Eu estava lá....

Confiram a letra original em dialeto piemontese e depois a tradução italiana e portuguesa:

Sciur padrun da li béli braghi bianchi,
fuora li palanchi, fora li palanchi,
sciur padrun da li béli braghi bianchi,
fuora li palanchi ch'anduma a cà.

A scuza, sciur padrun,
s'a l'èm fat tribulèr,
l'era li prèmi vòlti,
l'era li prèmi volti.

a scuza, sciur padrun,
s'a l'èm fat tribulèr,
l'era li prèmi volti,
ch'a'n saiévum cuma fèr.

Sciur padrun da li béli braghi bianchi...

E non va più a mesi
e nemmeno a settimane,
la va a poche ore,
la va a poche ore,

E non va più a mesi
e nemmeno a settimane,
la va a poche ore,
e poi dopo andiamo a cà.

Sciur padrun da li béli braghi bianchi...

E quando al treno a s-cefla
i mundéin a la stassion
con la cassietta in spala;
con la cassietta in spala;

E quando al treno a s-cefla
i mundéin a la stassion
con la cassietta in spala;
su e giù per i vagon!

Sciur padrun da li béli braghi bianchi...


Signor padrone dalle belle brache bianche(Tradução para italiano)

Signor padrone dalle belle brache bianche,
fuori i soldi, fuori i soldi,
 
signor padrone dalle belle brache bianche,
 
fuori i soldi chi andiamo a casa.
 

Scusi, signor padrone,
 
se l'abbiamo fatto penare,
erano le prime volte,
erano le prime volte,

scusi, signor padrone,
se l'abbiamo fatto penare,
erano le prime volte,
e non sapevamo come fare.

Signor padrone dalle belle brache bianche ....

E non va più a mesi
e nemmeno a settimane,
la va a poche ore,
la va a poche ore.

E non va più a mesi
e nemmeno a settimane,
la va a poche ore,
e poi dopo andiamo a casa.

Signor padrone dalle belle brache bianche...

E quando il treno fischia
le mondine alla stazione
con la cassetta in spalla,
con la cassetta in spalla

E quando il treno fischia
le mondine alla stazione
con la cassetta in spalla,
su e giù per i vagoni.

Signor padrone dalle belle brache bianche...

Senhor patrão das belas calças brancas(Tradução para português)

Senhor das belas calças brancas, 
passe o dinheiro, passe o dinheiro, 
senhor das belas calças brancas, 
passe o dinheiro que vamos para casa. 

Desculpe-me, meu senhor, 
se o fizemos sofrer, 
foram as primeiras vezes, 
foram as primeiras vezes,

Desculpe-me, meu senhor, 
se o fizemos sofrer, 
foram as primeiras vezes, 
e não sabíamos como fazer. 

Senhor das belas calças brancas .... 

E não vai mais meses 
nem mesmo semanas,  
só mais algumas horas, 
só mais algumas horas, 

E não vai mais meses 
nem mesmo semanas,  
só mais algumas horas,  
e depois vamos para casa. 

Senhor das belas calças brancas ... 

E quando o trem apita
As "mondinas"(mulheres que trabalhavam nos arrozais) 
com a caixa no ombro, 
com a caixa no ombro. 

E quando o trem apita
As "mondinas",
com a caixa no ombro,
Para cima e para baixo nos vagões. 

Senhor das belas calças brancas ... 


(Fonte: Blog  )

sábado, 24 de maio de 2014

Padre José de Anchieta


A propósito da recente santificação do Padre José de Anchieta, reproduzo aqui um poema bastante atual de Guilherme de Almeida pedindo oração ao agora, São José de Anchieta:




Prece a Anchieta


Santo: erguesses a cruz na selva escura;

Herói: plantasses nossa velha aldeia;

Mestre: ensinasses a doutrina pura;

Poeta: escrevesses versos sobre a areia!



Golpeia a cruz a foice inculta e dura;

Invade a vila multidão alheia;

Morre a voz santa entre a distância e a altura;

Apaga o poema a onda espumejante e cheia...



Santo, herói, mestre e poeta: — Pela glória

que destes a esta Terra e a sua História,

Pela dor que sofremos sempre nós.



Pelo bem que quisesses a este povo,

O novo Cristo deste Mundo Novo,

Padre José de Anchieta, orai por nós!


Um pouco de literatura brasileira - Mario Quintana

Bilhete
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os monjolos


                               
         Carpinteiros, ferreiros  e pedreiros, Dito Mineiro e o compadre João Oliveira eram sempre requisitados pelo povo das redondezas ali no Sul de Minas  para montar monjolos, construir casas e pontes e realizar consertos em geral. Também eram especialistas em construir as chamadas “tiradas de água”, valas  para que a água de algum córrego chegasse até determinado local. Muitas vezes eram desafiados a fazer a água chegar a algum  local que parecia mais alto que o nível do córrego, mas com paciência e obstinação, conseguiam a proeza: a água chegava e passava a servir,  fosse para movimentar um monjolo, um moinho  ou para  uso doméstico.

          Essas habilidades as aprenderam com Giacomo de Lucca, mais conhecido como Jaco Lateiro,  um italiano que era mestre em trabalhar com folhas de lata e madeira e que também tinha  conhecimentos de mecânica  rudimentar e marcenaria.

              Inicialmente os dois compadres aprenderam a colocar cabos em canecas feitas de latas de azeite , depois a fabricar cartolas e tonéis  para vinho. 

           Antes de começarem a trabalhar sozinhos só levavam à frente os trabalhos depois da aprovação do velho mestre italiano. Com o tempo foram se especializando, aprendendo novas técnicas e aos poucos dispensaram as avaliações do velho, que enciumado, sempre punha defeitos nos trabalhos dos dois.

         – Seu Candido, este monjolo não está bom. A madeira é “molto” pesada e a “acqua” cai “presto súbito”.

         – Olhe, seu Jaco, pode ser, mas ele funciona bem. Já bateu quase dois jacás de milho semana passada.

 –  .........

           Os dois compadres haviam nascido em Andradas e anos mais tarde as famílias se mudaram para Campo Místico, mais ao sul de Minas, onde foram morar  na roça com os pais que trabalhavam no sistema de-a-meia para João Frutuoso, uma espécie de coronel local e que também era fazendeiro.

               Os dois, com quinze anos se apaixonaram pelas irmãs Antônia e Jesuina  ambas com quatorze anos e moradoras ali do bairro. Daí a um ano estavam casados com as duas irmãs e morando parede-e-meia numa casa de barro  no bairro dos Machados.   
  
               Com o passar dos anos cada um dos dois se especializou em alguma atividade embora trabalhassem juntos. Dito era melhor como ferreiro e carapina  e João como pedreiro e construtor de monjolos.  Os dois dispunham de instrumentos rudimentares: um prumo já desgastado pelo tempo, duas colheres enferrujadas,  martelos já meio disformes, talhadeiras, formões  e cepilhos meio sem corte.  Essas falhas nos seus instrumentos eram supridas com suas habilidades e conhecimentos.
  
 Para esquadrinhar os alicerces de uma casa utilizavam o método dos antigos egípicios: uma corda com alguns nós em posições exatas esticada a partir de um mourão determinava os cantos da casa e após isso definiam as linhas de contorno.

Quando eram requisitados para construir alguma ponte, inicialmente examinavam o local e definiam os tipos e tamanho da madeira que empregariam. Depois adentravam o mato e procuravam a madeira ideal quanto ao diâmetro e comprimento das toras que poderiam aparar.

Para os monjolos havia necessidade de usar a madeira correta: a peroba ou a caneleira preta. O cocho era aparelhado com machado e depois acertado com formão. 

Para os monjoleiros em geral, a suprema vergonha era fazer um monjolo que não funcionasse. Seriam alvo de chacota por todo o bairro.

Com Dito e João  isso nunca acontecia, pois seus monjolos sempre funcionavam e inclusive eram alvo de cópias de outros monjoleiros.

Mas copiar um monjolo não era garantia de funcionamento pois havia necessidade de estudar a vazão da água, a altura da queda e outros detalhes.


Ficou célebre a polêmica que  Dito e João tiveram com o mestre Jaco Lateiro quando foram requisitados para construir um monjolo para o fazendeiro Zé Espoleta.  Este queria que construíssem em sua propriedade o maior monjolo da região, mas havia pouca água para movimentá-lo. Além disso o local onde corria a água era plano. Jaco Lateiro logo de início disse que seria impossível mas os dois compadres após estudarem o local afirmaram que seria possível sim.

A polêmica despontou. Nos botecos e vendas da região o assunto era um só: o monjolo do Zé Espoleta. Apostas eram feitas, discussões acaloradas aconteciam e Jaco Lateiro zombava dos dois antigos discípulos.

–“Ma che!!!!” Monjolo naquele lugar, nem com a mão de Deus! Impossível!

Apesar disso Zé Espoleta autorizou Dito e João  a construirem o monjolo, com algumas advertências.

– De Borda da Mata até aqui esse terá que ser o maior monjolo . E não me façam passar vergonha! – sentenciou.

– Pode deixar, seu Zé, em dois meses o senhor terá o seu monjolo funcionando. E o senhor se orgulhará de tê-lo em seu sítio – prometeram os dois compadres – E o “seu” Jaco vai ter que morder a língua!


   Os dois compadres estudaram o local, procuraram a madeira certa e posse de todas as informações iniciaram a construção do monjolo de Zé Espoleta. Com a evolução da construção a polêmica se acirrou e Jaco Lateiro já não se ocupava mais de outro assunto. Passava o tempo todo colocando defeitos na obra dos dois compadres e atazanando Zé Espoleta.

– “Signore Giuseppe”, aquele monjolo não vai funcionar. O senhor vai perder tempo e dinheiro..

– “Seu” Jaco, os dois me garantiram que funcionará. E resolvi apostar nisso – respondia Zé Espoleta, já cansado das implicações do velho italiano.

– Bem, o dinheiro é seu e o senhor é quem sabe...

Zé Espoleta dava toda força aos dois compadres monjoleiros até porque descobriu que Lazo Mendes, seu vizinho e desafeto também estava construindo um grande monjolo em sua propriedade. Zé não queria ficar para trás. O seu tinha que ser o maior monjolo da região! E tinha que terminar antes que Lazo Mendes  terminasse o seu.

Um mês depois os dois compadres já haviam providenciado a tirada de água para o funcionamento do monjolo e chamaram Zé Espoleta para observar o teste. Sem ser chamado, Jaco Lateiro também apareceu por ali dando palpites.

– A água não tem força para movimentar o monjolo. Não vai funcionar!

– Êta velho agourento! –  observou Zé Espoleta.

– Tá torcendo para não dar certo – confirmou João Oliveira.
   O teste foi feito, a água correu normalmente e sua força foi testada e aprovada. Zé Espoleta animado, adiantou aos dois compadres metade do que haviam combinado.

À noite, na venda do Julio Veiaco o assunto despontou de novo  e Jaco Lateiro, irritado com as gozações dos amigos, se enfiou numa garrafa de pinga, embebedou-se até as palavras não se articularem mais e teve que ir para casa carregado.

Alguns dias se passaram e os dois compadres já quase terminavam o monjolo quando algo inusitado aconteceu: numa sexta-feira de manhã a tora onde talhavam o monjolo amanheceu totalmente queimada.

Rebuliço no bairro! Por todo canto os comentários corriam soltos.

– Acho que foi o Jaco, aquele carcamano – sentenciava um.

– Qual o quê! Deve ter sido o Lazo Mendes que mandou queimar o monjolo. Aquele pobretão invejoso – opinava outro

–  Sei não, deve ter sido coisa do demo – pensava alguém.

Os dois compadres ao saberem da notícia ficaram inconformados. Estava já o monjolo quase totalmente talhado e acontece uma coisa dessas. Um desastre!

Zé Espoleta, então, ameaçador, sentenciou:

– Vamos descobrir quem foi e esmigalhar a cabeça dele no pilão do novo monjolo. Podem começar a construção de outro – determinou aos dois compadres.

Zé Espoleta foi ao delegado na cidade e deu parte do ocorrido. O delegado João Beiçudo prometeu investigar o caso e no dia seguinte já providenciou a ida de dois soldados ao local. Examinaram a tora queimada, indagaram os moradores das proximidades e voltaram à cidade para relatar a João Beiçudo que nada apuraram, pois não havia pistas e nenhum morador vira coisa alguma.

Enquanto isso Jaco Lateiro enfiou-se em casa e não saiu por três dias. Essa atitude reforçou as suspeitas de que fora ele que queimara a tora.

O delegado, sem saber o que fazer e pressionado por Zé Espoleta resolveu acusar o italiano mas os dois compadres saíram  em sua defesa.

– Olhe João, o Seu Jaco jamais faria uma coisa dessas. Ele anda meio estranho com a gente mas nunca.......

– Tá bom, tá bom, mas se entendam com o Zé Espoleta então.

Jaco Lateiro, magoado, mudou-se do bairro e foi trabalhar para Lazo Mendes. Foi encarregado de supervisionar a construção do monjolo deste.

Os dias se passaram e os dois compadres trabalharam com zelo e esforço. Terminar o monjolo do Zé Espoleta antes que o do Lazo Mendes ficasse pronto era questão de honra. Ainda mais sabendo que o velho mestre Jaco estava à frente da empreitada rival.

Para evitar qualquer problema Zé Espoleta destacou dois empregados para tomarem conta da tora durante a noite. Queria evitar que alguém a roubasse ou a queimasse de novo. Os dois empregados se revezavam, noite um, noite outro.

Dessa vez tudo transcorreu normalmente e depois de duas semanas finalmente o cocho do monjolo estava pronto. Faltava a haste e a montagem.

Zé Espoleta passava os dias apreensivo imaginando que Lazo Mendes  deveria estar preparando alguma coisa para atrapalhar tudo. Mandou um capanga disfarçado ao bairro vizinho espionar a construção do monjolo de Lazo Mendes. O capanga relatou tudo que viu e Zé Espoleta chamou os dois compadres que lhe garantiram terminar o monjolo no prazo.

Zé Espoleta atendeu a sugestão dos dois compadres para que a inauguração ocorresse no dia 19 de março, dia de São José, padroeiro dos carpinteiros e dia santo por ali.

Ao saber da inauguração do concorrente Lazo Mendes chamou Jaco Lateiro de lhe deu um ultimato:

– Seu Jaco, ou o senhor termina meu monjolo antes do Espoleta ou pode pegar a estrada.

– “Signore Lazaro”, fique tranquilo. O monjolo ficará pronto na data – respondeu o velho mestre.

A partir daí Jaco requisitou mais dois empregados, apressou a tirada de água, fez os testes finais e começou a dar os últimos retoques no monjolo. Enorme, comprido  e pesadíssimo, seria um grande desafio se funcionasse. Mas tinha que funcionar! Jaco precisava dar uma lição nos antigos discípulos e mostrar que era melhor que eles. Mas o prazo era reduzido e isso o incomodava.

Era dia 20 de fevereiro e Jaco precisava terminar o monjolo até dia 15 de março  que naquele ano cairia num sábado. Lazo Mendes programou também uma grande festa para o dia e continuava pressionando o velho italiano.

– Veja lá, seu Jaco, não vá me decepcionar – quero dar uma lição naquele gargantão.

– “Lascia stare...” – resmungava o velho enquanto aplicava  golpes de formão na tora de madeira.

Os dias se passavam e os dois sitiantes se vangloriavam de suas próximas realizações. Na venda do Julio Veiaco o assunto era um só: os dois monjolos.
O assunto já ultrapassava os limites dos bairros e chegava à cidade. No bar do Fredão também o assunto girava e as apostas corriam soltas.

– Dez contra um no italiano!

– Que nada! Cinco a um para os dois compadres.

–  Acho que vai dar empate, os dois lados são bons


O capanga de Zé Espoleta relatou ao patrão os preparativos de Lazo Mendes para a inauguração de seu monjolo e Zé Espoleta, decepcionado,  foi ter com os dois compadres que lhe garantiram que no dia combinado tudo estaria pronto. Mesmo perdendo o prazo para o desafeto, o monjolo de Zé Espoleta funcionaria perfeitamente e seria o maior da região. Atenderia o bairro todo.

Vencer  Lazo Mendes na disputa dos monjolos seria a glória para Zé Espoleta. Por isso mandou preparar uma grande festa para o dia. Convidou o prefeito  e alguns sitiantes vizinhos. Chamou também o Monsenhor Brito para benzer o monjolo. O religioso  porém, recusou.

No bairro dos Guatura o monjolo de Lazo Mendes ficou pronto e um dia antes do sábado da inauguração Jaco Lateiro providenciou tudo: testou a força da água; as pancadas do monjolo no pilão e os últimos detalhes.  Tudo estava correto.

Às dez horas da manhã de sábado Lazo Mendes mandou  iniciar a festa. Ao seu sinal  Jaco  Lateiro retirou a trava do monjolo e o cocho começou a se encher de água. Expectativa geral. Todos esperavam a primeira pancada do monjolo para iniciar o foguetório e a festa.

À medida em que o cocho se enchia de água Jaco Lateiro ansioso, esfregava as mãos.

Finalmente o cocho se encheu de água e.......ficou no mesmo lugar, não desceu. Lazo Mendes olhou para o italiano e fez um movimento dos lábios, como que indagasse:

– O que aconteceu?

O velho italiano, inconformado e envergonhado, tentava baixar o cocho manualmente enquanto pedia ajuda divina:

– “Dio”, me ajude! Me ajude!
Em vão! O monjolo permanecia imóvel, a água transbordando pelo cocho.

Lazo Mendes furioso, aproximou-se do monjolo e também tentou descobrir porque o cocho não baixava. Olhava para Jaco Lateiro com ares de reprovação o que deixava o velho mestre ainda mais desconcertado.

Jaco dava marretadas no corpo do monjolo com a intenção de fazer o cocho baixar. Seus auxiliares com enxadas alargavam o rego de água acima do local onde o monjolo fora instalado.  Tentavam,   com isso, aumentar o fluxo de água e fazer o cocho descer. Mas nada dava certo e as pessoas em volta já estavam ficando inquietas com a demora.

          Lazo Mendes dava socos no ar e vociferava contra o monjolo do italiano. Seria uma tremenda vergonha quando o bairro inteiro soubesse e a noticia chegasse ao bar do Fredão na cidade!

          Por fim, desistiram. Lazo Mendes inconformado montou em seu cavalo e desembestou rumo à cidade. Ele mesmo daria a noticia no bar do Fredão. Pelo caminho ia pensando numa desculpa. Talvez dizer que a madeira do monjolo estava bichada e umedeceu demais ou que alguém acima da colina desviou parte da água reduzindo a vazão.

         Jaco Lateiro sentado numa pedra olhava para o monjolo. As lágrimas escorriam pelo rosto vermelho. Segurava o chapéu com uma mão e com a outra tapava o sol acima dos olhos. Seus ajudantes tentavam minimizar a situação mas Jaco estava inconformado. Não tinha explicação para a falha.
     
         Alguns dias depois, apesar dos compadres não terem conseguido cumprir o prazo inicial prometido, o monjolo de Zé Espoleta ficou pronto e funcionou perfeitamente. Dito  e João João foram alvo de congratulações e admiração no local.

        Apesar de toda a alegria se penalizavam com a desventura do mestre Jaco Lateiro, ridicularizado por todos depois da falha  de seu monjolo.

         Após algum tempo chamaram-no para trabalhar na oficina deles lhe dizendo que havia serviços de confecção de canecas e consertos de panelas, barris e outros artefatos de madeira. O velho, até porque precisava ganhar alguma coisa para sobreviver, aceitou e passava os dias sentado num banquinho martelando as latas e a madeira. Muitas vezes os compadres lhe davam serviços fictícios para ele apenas se ocupar.
              
         Um belo dia o velho desapareceu e ninguém mais o viu por ali. Com o tempo correram noticias de que havia ficado louco e que andava pelas estradas chacoalhando a cabeça e balbuciando:

         -“ ...ma ha funzionato nella prova!” (mas funcionou no teste!)

domingo, 11 de novembro de 2012

Relembrando Machado de Assis



Aqui vão algumas passagens e/ou trechos de algumas de suas obras que me chamaram a atenção (e ainda chamam). A maneira com que Machado manejava as palavras, sua filosofia, sua psicologia, seu jeito peculiar de descrever as ações de seus personagens, tudo tem um sabor especial. É, sem dúvida alguma, o maior escritor brasileiro de todos os tempos!

Trecho de Ressurreição:

"Longa foi a gestação do amor, mas quando ele descobriu o estado de sua alma, não era centelha que se pudesse apagar, mas incêndio que lavrava e consumia tudo"

Trecho de Quincas Borba:

"....as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona – um triste molambo de mulher – chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. / – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía, neste mundo./ – Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto?"

Síntese do "humanitismo" também em "Quincas Borba":

"Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."


Última estrofe de "A mosca azul":

Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.